E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.
Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.
E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?
Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.
Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.
A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.
Rubem Braga
Vale a pena dizer que houve um telefonema e que, dez minutos depois de 'terminados' e separados pela primeira vez, eu pedi pra vc voltar. 'Vira o carro e volta aqui'. Não, não foi a coisa mais fácil, e só vamos descobrir se foi o certo daqui uns dias, se era melhor mesmo se separar agora, como vc quis e disse, sem mágoas nem raivas, talvez - mas o caso é que vc voltou. Pra variar, intensa em tudo, eu acredito em separações definitivas - qdo acaba, acaba. E talvez por isso eu não tenha deixado vc ir embora, por não pensar em volta, por saber que pro meu coração eu estava deixando vc ir pra sempre. E, mais do que isso, pq eu ainda acredito - não sei como - que a gente consegue. Que é loucura duas pessoas se gostarem tanto e se separarem. E, se loucura foi eu ter pedido pra vc voltar, que minha loucura seja perdoada, pelo óbvio.
"Que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também."
Osvaldo Montenegro
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